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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Murmuração versus Louvor


Esse é o texto do sermão que preguei na Igreja Batista da Vila Gerte (São Caetano), dia 24 de junho de 2012.

 A palavra de Deus não esconde as mazelas dos seus personagens humanos. Quantas vezes queremos esconder nossos erros e fracassos, para que as pessoas nos aceitem! O cantor Frejat mostrou essa preocupação numa letra de música:
Procuro um amor, que seja bom pra mim,
Vou procurar, eu vou até o fim,
E eu vou tratá-la bem, pra que ela não tenha medo,
Quando começar a conhecer os meus segredos.

         A Bíblia deixa muito claro, inclusive de seus principais personagens, quais foram seus erros e fracassos e não os esconde de ninguém. Apenas como exemplo podemos citar o caso do rei Davi, mesmo sendo um homem segundo o coração de Deus (Atos 13:22), teve alguns de seus pecados registrados no Antigo Testamento. Um deles foi querer fazer o recenseamento do povo (1 Crônicas 21) contra a promessa de Deus de fazer o povo de Israel uma grande nação. Por causa desse pecado de Davi, 70 mil homens morreram de peste. O outro pecado, famoso na vida de Davi, é seu adultério com Bate-Seba (2 Samuel 11).
         O povo de Israel, na Teologia, representa o que é, hoje, a Igreja de Cristo. Guardadas as devidas proporções, podemos aplicar várias passagens do povo de Deus do Antigo Testamento para a nossa vida. É bem verdade que precisamos lembrar que o Antigo Testamento é uma prefiguração do Jesus Cristo e não da nossa vida diretamente. Sendo assim, eu gostaria de convidá-los a pensar algumas coisas em relação à nossa vida.
O apóstolo Tiago se expressou muito bem quando, na sua carta, explicou a ação da língua na vida das pessoas (Tiago 3:1-12). Trata-se de um órgão muito pequeno, mas com um poder devastador de quem não sabe usá-la. O aposto diz que a língua pode ser inflamada pelo inferno (v. 6), o que demonstra a facilidade com que pecamos no uso da língua. Numa de suas conversas com Seus discípulos, o Mestre disse que a boca fala com o que está presente no coração (Lucas 6:45). Na Bíblia, o coração é mais do que um órgão que bombeia o sangue. Em sentido figurado, o coração é a sede do intelecto (Gên. 6:5), dos sentimentos (1 Sam. 1:8) e da vontade (Salmo 119:2).  Portanto, como ensinou o Mestre em outra oportunidade, “O homem bom tira boas coisas do seu bom tesouro, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más.” (Mateus 12:35).
Precisamos tomar cuidado com o que falamos, com quem falamos e como falamos. Davi, no Salmo 19, nos conclama a que nossas palavras sejam agradáveis diante do Senhor. Mas o falar do salmista, vem acompanhado com a meditação do coração, o que nos mostra o estreito vínculo da boca com o coração (v. 14). Salomão, em seus Provérbios, também nos chama a atenção para uma boa qualidade de vida, a partir do bom uso da nossa língua, “O que guarda a boca e a língua guarda das angústias a sua alma.” (Provérbios 21:23). E mais uma vez, recorremos ao apóstolo Tiago, quando ele nos ensina que falar demais está associado à ira que essa tagarelice pode causar, “Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” (Tiago 1:19).
Para nossa lembrança, murmuração significa falatório depreciativo, detração, maledicência, calúnia e mexerico. Mas quais eram os motivos que o povo de Deus tinha para tratá-lO dessa maneira? A Bíblia faz separação entre uma reclamação justa e entre uma reclamação injusta, ou seja, um murmúrio. Em Lucas 18, Jesus conta uma parábola de uma viúva que importunava um juiz malvado. De tanto importunar o juiz, a viúva conseguiu que o juiz julgasse a sua causa (v. 5).
No Antigo Testamento vemos, pelo menos, 10 situações em que o povo de Israel murmurou contra o Senhor, isto é, reclamou sem uma justa causa.

1.    Êx. 14.11 — Quando persegui­dos pelos egíp­cios junto ao mar ver­melho lamen­taram a sua morte.
2.    Êx. 15.23 — As águas eram amar­gas e dis­seram: que have­mos de beber? Moisés lançou um pau nas águas e ficaram doces.
3.    Êx. 16.2 — Fal­tou o pão e lamen­taram as pan­elas da carne. Deus enviou maná de manhã e carne à tarde.
4.    Êx. 17.3 — Não havia água. Dis­seram: por que mor­rere­mos à sede? A rocha deitou água.
5.    Êx. 32.1 — Moisés demorava-se e pedi­ram deuses que os guiassem. Arão deu-lhes um bez­erro de ouro. Irou-se o Sen­hor, (9–11).
6.    Nm. 11.1 — Queixaram-se do maná no deserto. Veio fogo do Sen­hor e con­sumiu alguns no arra­ial.
7.    Nm. 12.2 — Miriam e Arão tam­bém querem a lid­er­ança. O Sen­hor irou-se e Miriam ficou leprosa, (9,10)
8.    Nm. 14.2 — Rev­e­lam temor dos gigantes da terra e mur­mu­ram. Deus disse que não entrariam na terra prometida, (23).
9.    Nm. 16. 3 — A rebe­lião de Coré con­tra a lid­er­ança de Moisés e Arão. A terra engoliu os rebeldes. E fogo do Senhor con­sumiu os 250; (33,35)
10. Nm. 16.41– Depois dis­seram: vós matastes o povo do Sen­hor. Deus indignou-se e enviou uma praga mor­rendo mais 14.600.

Vamos ver a ocorrência do bezerro de ouro, relatada em Êxodo 32.
O povo estava cansado de esperar sem ter uma resposta, por isso começou a murmuração (v. 1). Daí, pediram que Arão fizesse um bezerro de ouro, usaram suas riquezas para a fundição e fizeram para si um deus imaginário (v. 2-4). Feito isso, o sacerdote Arão declarou que no dia seguinte seria um dia de festa para o Senhor (v. 5). Quando amanheceu, o povo ofereceu sacrifícios, comeu e bebeu e se divertiu (v. 6). E é exatamente aqui o grande problema da murmuração: atribuir à criação o que é obra exclusiva de Deus.
Deus é muito claro quanto ao zelo que Ele tem com Seu nome e com Sua glória, “Eu sou o SENHOR; este é o meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor, às imagens de escultura.” (Isaías 42:8). Ele agiu dessa forma com Satanás (Ezequiel 28:13-19); agiu dessa forma com Nabucodonosor (Daniel 4:33).
O caso de Nabucodonosor é emblemático quanto a não atribuir a Deus o que Lhe é devido. Ele se inflou no seu orgulho, na grandeza do seu reino, nas riquezas que amealhou, ele cresceu e confiou na força do seu poder. E, por causa desse poder todo, atribuiu a si mesmo a sua grandiosidade (Daniel 4:30). E no mesmo instante Deus mostrou-lhe quem realmente manda (v. 31-33). Por causa de sua arrogância, Nabucodonosor foi contado com os animais do campo.
No episódio do bezerro de ouro, o povo reclamou contra o Senhor, atribuiu a um animal irracional o que era de Deus e a ira do Senhor Se acendeu contra Seu povo. E como Deus impetrou a Sua justiça? A justiça de Deus foi vindicada pelos levitas. A murmuração foi combatida pelos levitas, os responsáveis pelo louvor a Deus. É assim que Deus trata a reclamação do Seu povo. Ele é intolerante com esse comportamento. E o louvor é exatamente o oposto disso. Louvar a Deus significa que não estamos pensando nas derrotas, nas dificuldades, pois atribuímos a Deus as nossas bênçãos.
Quando louvamos a Deus nossa boca se enche de alegria e gratidão pela obra de Deus na nossa vida. Quando exaltamos o “Deus da nossa salvação”, reconhecemos a nossa pequenez e, ao mesmo tempo, reconhecemos a grandeza de Deus. O louvor a Deus nos liberta (Paulo e Silas – Atos 16:25-26); Saul era liberto de um espírito mau quando Davi tocava sua harpa (1 Samuel 16:23).

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