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sábado, 15 de agosto de 2009

Deus e o Diabo no NIH


O mais recente bafafá na blogosfera científica americana (um ambiente naturalmente fértil para bafafás, devemos admitir) envolve a nomeação de Francis Collins, antigo czar do Projeto Genoma Humano, para o cargo de diretor do NIH (sigla inglesa dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA).

O NIH, para quem não sabe, é a instituição pública com o maior orçamento de pesquisa médica do mundo. Collins está sumamente qualificado para lidar com projetos de vulto graças à experiência com o genoma. Mas uma coisa os críticos não engolem: a fé cristã militante do pesquisador.

Collins, ex-ateu e atual cristão evangélico, nunca escondeu sua profunda visão religiosa do mundo. Em seu livro "A Linguagem de Deus" e no site BioLogos (uma junção de "biólogo" com o Lôgos ou Verbo divino da tradição cristã), Collins se revela um defensor ardoroso da compatibilidade entre ciência e religião. Ele rejeita tanto o criacionismo quanto o Design Inteligente, mas argumenta que Deus poderia muito bem ter usado a evolução como ferramenta para criar os seres humanos ao longo de bilhões de anos

Blogueiros-cientistas (e ateus militantes) populares nos EUA, como P.Z. Myers e Jerry Coyne, andam flambando a reputação de Collins em óleo cru desde que sua indicação ao cargo foi cogitada pela primeira vez. O problema deles, afirmam, não é com a religiosidade de Collins, mas com o fato de ele supostamente usar seu prestígio para promovê-la publicamente como alternativa viável tanto ao ateísmo quanto ao fundamentalismo religioso. Ao menos enquanto usa o jaleco de cientista, Collins deveria ser um cristão "no armário", sugerem eles.

Em si, o argumento soa como polícia de pensamento. Se o sujeito quer defender a compatibilidade entre fé e ciência, está no direito dele, até porque Collins quase sempre está pregando para outros religiosos que relutam em aceitar a evolução, por exemplo, e não para ateus. O aspecto defensável da crítica, por outro lado, tem a ver com uma série de declarações do pesquisador, que afirmou repetidas vezes a impossibilidade, ou quase impossibilidade, de explicar o senso humano do certo e do errado com a ajuda da ciência. Para Collins, o conhecimento intuitivo da chamada "lei moral" seria prova da interação única de Deus com os seres humanos -- argumento que ele tomou emprestado do escritor e apologista cristão C.S. Lewis (1898-1963).

No entanto, ao dizer isso, Collins acaba ignorando anos de pesquisa que encontram sinais das bases da moralidade humana em primatas e outros mamíferos sociais, como os estudos do holandês Frans de Waal com a capacidade de empatia em bonobos, ou chimpanzés-pigmeus. Se não existem versões de Madre Teresa entre os chimpanzés e os elefantes, esses bichos, mesmo assim, têm uma noção considerável daquilo que chamamos de certo e errado. A preocupação dos críticos de Collins é que, ao tomar essa posição ideológica de "isso é inexplicável e deriva direto de Deus", ele possa desestimular novos estudos sobre o tema -- e talvez até cortar verbas do NIH para esse tipo de pesquisa. (A de Frans de Waal, por exemplo, que calha de receber esse financiamento.)

Claro que é cedo para dizer se Collins vai mesmo se comportar desse jeito. Mas, se ele aceitar um conselho de cristão para cristão, não é muito sábio do ponto de vista teológico atribuir qualquer fenômeno do Universo à intervenção direta de Deus (a palavra chave aqui é direta) e descartar explicações naturais a priori. Esse tipo de raciocínio é um caso clássico do chamado "Deus das lacunas" e equivale a batizar de "Deus" a ignorância humana -- até que essa ignorância seja sanada, como aconteceu no caso da evolução, por exemplo.

O efeito teológico disso é passar a sensação de que o "espaço" para Deus no mundo está encolhendo cada vez mais. Voltando à moralidade: mesmo que ela tenha evoluído por causas inteiramente naturais (o que é bem provável, na verdade), quem crê em Deus pode simplesmente postular que essas causas naturais foram os instrumentos divinos. Nada disso, claro, vai satisfazer os críticos mais raivosos de Collins, mas pelo menos pode aliviar os temores mais pertinentes deles.

(Reinaldo José Lopes)

Fonte: Laboratório Folha Online

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Não vou mais perder tempo nos sábados!!!

Nasci em 1972 e sempre fui criado “dentro da igreja”. Esse jargão é esquisito, mas demonstra que logo criança fui criado tendo a igreja local como grande referência na minha vida. Acordava cedo, antes dos meus pais, todo domingo de manhã, para ver o programa de Rex Humbard.

Depois veio o Jimmy Swaggart. Que voz, que músicas, que cantores e que pregação. Amava as manhãs de sábado, semana a pós semana, vendo o programa dele. Lembro-me de quanto eu apreciava vê-lo cantando e tocando seu piano. Dia desses atrás estava matando a saudade vendo-os no Youtube.

Aí a moda pegou no Brasil e os próprios brasileiros começaram a produzir seus programas. O primeiro programa que tenho na minha memória é O despertar da fé, acho que apresentado pelo missionário R. R. Soares. Depois muitos outros vieram: Universal, Caio Fábio, Sinos de Belém, Jabes de Alencar, Silas Malafaia, R.R. Soares, Valdemiro Santiago, Estevam Hernandes, Marco Feliciano, Josué Rodrigues, Hernandes D. Lopes, José Wellington.... são nomes de líderes evangélicos que tiveram e ainda têm seus respectivos programas na televisão brasileira. Basta você ligar a TV no sábado de manhã e você pode vê-los pregar, ouvir músicas, vender seus produtos, pedir ofertas e etc. Da lista que coloquei, acho que só o Caio Fábio não tem mais programa na TV, pelo menos não em São Paulo onde resido.

De qualquer maneira, os últimos escândalos envolvendo muitos dos que citei acima me fizeram tomar uma atitude que, ainda que eu a considere radical, é extamente isso que vou fazer: NÃO VOU MAIS ASSISTIR A NENHUM PROGRAMA EVANGÉLICO TELEVISO. E estou baseando minha decisão em vários fatores:

1. Preciso dormir mais. Dizem que estou ficando velho. Meu cardiologista disse que preciso tomar um remédio para meu coração continuar funcionando e que preciso perder peso. Então vou perder apenas o peso e não mais o meu tempo.

2. Teologia. Exceto o programa do Rev. Hernandes D. Lopes, não compartilho da mesma teologia dos outros programas. Todos eles estão envolvidos com os movimentos pentecostais ou neo-pentecostais (o que é pior!). Amo os cristãos pentecostais, meus pais eram pentecostais, tenho excelentes amigos pentecostais, vivi a maior parte da minha vida numa igreja pentecostal histórica. Contudo, a liderança pentecostal brasileira já era! Não confio neles, não acredito no que falam.

3. Repetição. É sempre a mesma coisa, não muda: triunfalismo, vitória sobre vitória, prosperidade, não existem problemas, pedidos de ofertas intermináveis, venda de material de qualidade duvidosa..... estou farto disso. As pregações são apelativas, rasas, sem conteúdo bíblico. Só chavões e nada de exposição das Escrituras.

4. Minha família. Preciso dar mais atenção à minha esposa, ouvir o que ela tem pra me dizer (que não é pouca coisa), sair com ela mais vezes, preparar-lhe o café da manhã, namorá-la, levá-la a algum parque... enfim, preciso estar mais próximo dela.

Prefiro dormir, andar de bicicleta (e estou precisando), jogar tênis, mergulhar, ir à praia com minha esposa, ler bons livros, escutar música a ficar passando nervoso vendo o que eles estão fazendo na TV. E vou aconselhar meus amigos a que façam a mesma coisa. Sabe, aprendo muito mais lendo os livros da minha pequena biblioteca do que ouvindo esses pregadores. E aprendo ainda muito mais lendo a própria Bíblia.

Naji Nahas, Lalau e Salvatore Cacciola para pastores evangélicos

O Ministério Público e a Polícia Federal realizam seus trabalhos normalmente. De vez em quando, isso aparece na mísia e com grande barulho. Provavelmente, se eles estivessem investigando o vigia do estacionamento em frente da minha casa, nem no jornal da cidade isso seria notícia.

Este ano está sendo bem difícil para alguns líderes evangélicos brasileiros. O homem dessa foto, que está segurando esse charutão (cubano, lógico!!!) é Naji Nahas. Alguns anos atrás, por semanas ele foi notícia nos jornais por uma série de crimes que estava sendo acusado. Ele e seus advogados diziam que era tudo mentira. O MP e a Polícia Federal diziam que era tudo verdade. Qual era a impressão da população? O povo em geral tinha certeza de que ele era culpado, mas dificilmente alguém conseguiria realmente provar isso. Você se lembra como os líderes evangélicos se posicionaram a respeito do Naji Nahas? Pois é. Coitadinho dele. Nenhum pastor teve uma palavra de revelação para ele. Nenhum pastor saiu em sua defesa para dizer que isso era uma artimanha do diabo para derrubá-lo.

Essa segunda foto é de Nicolau dos Santos Neto, mais conhecido como o “Juiz Lalau”. Segundo o mesmo Ministério Público e a Polícia Federal apuraram, ele desviou milhões de reais dos cofres públicos, tinha casas fora do país, contas em paraísos fiscais, aparecia na televisão zombando e fazendo pouco caso disso tudo. Foi preso e saiu. Depois foi preso de novo e saiu de novo, inclusive para prisão domiciliar por causa de seu estado de saúde. Você viu algum pastor revoltado com isso? Quantos pastores escreveram, ou pregaram, ou profetizaram defendendo o Lalau? Não ouvi nenhuma profecia desses pastores para encorajá-lo a sair dessa situação. e por que as igrejas evangélicas não se posicionaram contra os “abusos” que estavam sendo cometidos contra o nobre juiz e seus familiares?


Meu terceiro exemplo é esse senhor sorridente da foto ao lado. Se você não o reconhece, ele é Salvatore Cacciola. Acusado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal de crimes parecidos com os do Lalau e de Naji Nahas. Ele foi preso e depois liberado. O que aconteceu? Ele sumiu do Brasil. Ninguém o achava. Polícia Federal, INTERPOL, FBI, Scotland Yard, a SWAT, a Legião Estrangeira.... todo mundo estava procurando o homem e nada. De repente ele apareceu no exuberante principado de Mônaco. Que absurdo!!! Coitadinho dele! Acusado de roubo, devidamente negado pelos excelentes advogados dele, Cacciola foi preso em Mônaco. Certamente a água mineral que ele bebia era Perrier, com excelentes vinhos da região de Bordeaux, as champagnes deviam ser francesas também, muito caviar, strogonoffs dos mais variados tipos... e o que a igreja evangélica fez? Nada!!! Absolutamente nada!!! Ninguém disse que o diabo o estava perseguindo. Nenhum pastor se levantou para explicar como o inferno estava arquitetando um ataque a Salvatore Cacciola.

Honestamente, eu acho que Naji Nahas, Nicolau dos Santos Neto e Salvatore Cacciola deveriam ser separados para o pastorado. Seria muito melhor para eles, pois além dos advogados mais caros e competentes para defendê-los, os pastores brasileiros iriam convocar milhares de anjos para os acompanharem em suas detenções, a voz profética para eles se levantariam dos quatro cantos do país, milhões de pessoas orariam para eles serem libertos e o diabo seria acusado de fazer isso contra eles. E para o diabo seria muito bom. Se o Ministério Público e a Polícia Federal fossem prendê-lo, eles ficariam todos queimados e morreriam no lago de fogo e enxofre.