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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Os Decretos de Deus


No clássico Os Dez Mandamentos, estrelado Charlton Heston e Yul Brynner, há uma frase muito interessante dita pelos faraós: “Assim está escrito, assim será feito”. Eu não sei se essa frase realmente existiu no Egito Antigo, mas ela demonstra o poder e a força que os faraós tinham. O que eles determinassem, certamente aconteceria. E se não acontecesse alguém pagaria pelo não cumprimento daquela determinação.

Neste capítulo 2, Arthur Pink reflete sobre os decretos de Deus. Lembro-me que quando eu li esse capítulo eu exultei de alegria, pois fui apresentado para um Deus diferente daquele visto na Escola Dominical. Sempre acreditei que Deus é Todo-poderoso, mas nunca tinha pensado na extensão de Seu poder.

Os decretos de Deus são Suas determinações dos atos futuros. Usamos o termo no plural porque nossas mentes funcionam melhor quando os eventos são encadeados um ao outro. Mas as Escrituras tratam dos decretos como um único ato, acabado e definido. Nossas mentes, como destacou Pink, funcionam em ciclos sucessivos e pensamos que cada evento sucede e é sucedido por outro, e por outro e por outro. Mas a mente divina contempla tudo desde a eternidade (Atos 15:18).

Os decretos de Deus são a expressão da vontade de Deus. É preciso lembrar que a vontade de Deus é “boa, agradável e perfeita” (Romanos 12:2). Se a vontade de Deus tem essas três características, não devemos nos estranhar com ela, pois essas características também são do próprio Deus. A Sua vontade e os Seus decretos não foram influenciados por nenhum fator externo ao próprio Deus. Portanto, deve ser motivo de nossa alegria o cumprimento da vontade de Deus. 

“O que quer que seja feito no tempo, foi preordenado antes de iniciar-se o tempo”. Com essa frase, Pink passa a explicar que os decretos de Deus se relacionam com todos os eventos futuros, sem exceção. Os decretos de Deus envolvem os eventos bons e maus, grandes ou pequenos. Inclusive a entrada do pecado e do sofrimento na Sua criação. Sendo Deus santo e bom, Ele não é o criador do mal no mesmo sentido que Ele é o criador da natureza, por exemplo. A ação de Deus foi permitir a entrada do mal na Sua criação e não a sua criação ativa. Nas palavras de Pink, “Deus é o Ordenador e Controlador do pecado”. Deus assume a responsabilidade da entrada do sofrimento e da miséria na Sua criação, mas não foi Ele o seu criador.

Nós não fomos simplesmente criados e abandonados neste mundo. Além de querer nos criar Deus “fixou todas as circunstâncias do destino dos indivíduos e todas as particularidades que a história da raça humana compreende, desde seu início até o seu fim”. Que frase forte essa! Para mim é realmente confortante e abençoador saber que meu criador tem um plano traçado para mim e que não estou por conta da minha própria sorte, vivendo minha vida como um andarilho errante no deserto sem saber para onde caminhar. Eu sei para onde vou e o modo como vou para lá Deus já sabe porque escolheu para mim o que Ele tinha de “bom, agradável e perfeito”. Se eu fosse deixado por minha própria conta e risco, certamente não chegaria onde Ele quer que eu chegue.

A partir desse ponto, Pink passa a mostrar quatro características dos decretos de Deus: eles são eternos, sábios, livres e absolutos e incondicionais. Se Deus tivesse que mudar de plano a todo instante, significaria que o plano não era perfeito antes e não tinha previsto algum imprevisto. Isso nos levaria a pensar que Deus vai melhorando toda vez que Ele tivesse que reestruturar Seu plano. Já em 1961 Pink alertava: “Ninguém que creia que o entendimento divino é infinito, abrangendo o passado, o presente e o futuro, jamais admitirá a errônea doutrina dos decretos temporais”. Hoje, infelizmente, o Teísmo Aberto tem produzido muitos prejuízos na igreja evangélica brasileira. Quando refletimos sobre a eternidade dos decretos de Deus temos o consolo suficiente para nossas preocupações futuras. O que quer que nos assole no tempo presente, Deus já decretou como nos fortalecer.

Os decretos de Deus são sábios e, por isso mesmo, são além da nossa especulação. Como pensamos de modo encadeado sem ter a noção do todo, nos perdemos na tentativa de compreender o que nos acontece. A sabedoria de Deus vai além do que podemos imaginar. Todos os problemas que já ocorreram no meu casamento me fizeram questionar se realmente tinha casado com a pessoa certa. Com Deus não acontece isso. Certamente Deus tinha o melhor para mim quando me decidi casar com a Cyntia e, obviamente, tinha o melhor para ela quando ela se decidiu por mim. Mas não conseguimos ver assim. Vemos o hoje, o agora, o momentâneo, o passageiro. Deus vê tudo.

“Quem guiou o Espírito do SENHOR? Ou, como seu conselheiro, o ensinou? Com quem tomou ele conselho para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho de entendimento?” (Isaías 40:13-14) O que poderia ser escrito depois de um texto como esse? Nada, nem ninguém influenciou a Deus para Ele tomar Suas decisões. Nem mesmo o diabo influenciou Deus a tomar alguma decisão. Como dizia Lutero: “o diabo é o diabo de Deus”. Os decretos de Deus foram tomados livremente sem caprichos, sem paixões, sem dramas. Apenas Deus, subsistindo na Sua trindade, decidiu tudo.

Qualquer governante depende de um conjunto de circunstâncias para que suas vontades sejam estabelecidas. Com Deus isso não acontece. Não há ninguém que possa fazer frente às Suas determinações. Quem pode questioná-lo a ponto de impedir o cumprimento da Sua vontade? A Bíblia está recheada de situações em que os homens quiseram impedir o cumprimento da vontade de Deus. Voltando no filme Os Dez Mandamentos, lemos na Bíblia a saga que o faraó impôs ao povo judeu até que “com mão forte” Deus fez o Seu povo sair do Egito para uma terra que manava “leite e mel”.

E aqui, Pink encerra o capítulo com um dos pontos mais importantes da teologia: a relação da soberania de Deus e da responsabilidade humana. As Escrituras Sagradas ensinam essas duas realidades. Da mesma forma que ensinam a divindade e a humanidade de Jesus Cristo, a nossa luta em fazer o bem sendo maus. Cristo é Deus e homem. Ele é onisciente, mas crescia em sabedoria (Lucas 2:52). Essas realidades não se opõem, mas como Pink afirma, “que há real dificuldade em definir onde um termina um e o outro começa. Sempre acontece isto quando há uma conjunção do divino e do humano”. 

Não é possível negar os decretos divinos. Se quisermos negá-los temos que assumir que o mundo e tudo que acontece nele é por acaso ou por um destino cego e isso é incompatível com o Deus das Escrituras.

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