sábado, 2 de março de 2019

Frank Turek e o seu problema com o livre arbítrio


“O problema é no coração, não na cabeça. Eles (ateus) não querem que seja verdade (que o cristianismo seja verdadeiro).”


“O problema está na vontade.”



Essas duas frases foram ditas por Frank Turek, um importante apologeta do cristianismo[1]. Em seu livro, Não tenho fé suficiente para ser ateu (Editora Vida), ele fornece muitos bons argumentos contra o ateísmo. Mas aqui ele escorregou!



A primeira frase está relacionada com a cosmovisão (visão de mundo) que as pessoas têm. De modo consciente ou não, todos nós expressamos nossas opiniões e tomamos decisões com base naquilo que cremos. James Sire, em Dando nome ao elefante (Editora Monergismo), diz que temos um envolvimento com o coração, ou seja, com o âmago da nossa vontade, e nos comprometemos integralmente com aquilo que cremos. Não é apenas uma decisão racional – e nisso Turek está certo – mas é um envolvimento de tudo o que crê e é. Ainda que não haja consciência disso. Então, Turek conclui que ateus não assumem a possibilidade de o cristianismo ser verdade porque sua cosmovisão aponta o vetor da vida deles para outra direção. Ao assumirem o pressuposto de que Deus não existe, a partir dele, eles tomam todas as decisões da vida. Desde tentar responder sobre a origem da vida até o próximo relatório para a FAPESP ou para o CAPES e até mesmo o paper que escrevem para alguma revista científica qualis A.



Mas Turek comete um outro equívoco. No tempo 1:12, Turek diz que o homem tem livre arbítrio para aceitar ou não as coisas e que Deus nos deu o livre arbítrio. Em 2:24, Turek se contradiz. No início de sua resposta ele afirma que o homem tem livre arbítrio podendo escolher o que quer fazer. Mas depois – em 2:24 – ele diz que o problema está na vontade. Ora, se o homem tem a vontade livre e o problema é a sua vontade, logo o livre arbítrio é um problema. E é mesmo. Simplesmente porque o livre arbítrio, a vontade livre do homem, não existe, é uma falácia.



O problema da resposta dele está nesse pronome pessoal nos. Se por nos Turek entende toda a raça humana pós-adâmica, ele está errado, totalmente errado. Se ele entende esse pronome pessoal como toda a raça humana e Adão, ele ainda estará totalmente errado. Mas se ele entende que que essa palavra, nos, corresponde apenas a Adão e Eva, aí concordamos. Acompanhe comigo a análise dessas três possibilidades.





Toda a raça humana, pós Adão, tem livre arbítrio

A palavra livre significa a capacidade que o homem tem de tomar suas decisões livre de qualquer influência, externa ou interna. Sabemos, pela história da humanidade e por experiência própria, que nenhum homem goza dessa liberdade plenamente. O feto não pode ir para onde quer, mas tem que ir aonde sua mãe o leva dentro do útero. E nem eu e você, que está lendo agora, goza da liberdade de não ter começado essa leitura. Você até poderia ter decidido não ler, mas foi forçado a ler pelo seu interesse, pelo autor, pela curiosidade do assunto, ou qualquer outro motivo que o tenha motivado a isso.



Depois que Adão pecou, sua vontade passou a ser dominada, escravizada nas palavras de Jesus, por uma força maior que ele, o pecado. No livro Os Puritanos e a conversão (Editora PES), Samuel Bolton chama o pecado de “o mal sem par”. O pecado é a força motriz que impulsiona o homem para longe de Deus. É o pecado que transforma a vontade humana em inimizade contra Deus e faz o homem tomar as decisões morais que toma, boas ou más, todas elas manchadas. Quando dizemos que todo homem é totalmente depravado não estamos dizendo que o homem pode ser tão mal quanto o pode em malignidade. Mas asseveramos, à luz das Sagradas Escrituras que não mentem, e à luz que vemos na história da humanidade que todas as áreas da vida humana e suas ações, são vistas por Deus como sujas pelo pecado. O pecado nos transformou como “trapos de imundícia” diante de Deus. Exalamos o cheiro putrefato da morte para as narinas de Deus. Depois de Adão, ser humano nenhuma goza de liberdade e do amor de Deus.



A menos que Jesus Cristo tenha morrido por tal pessoa, é firme a decisão de Deus de condenar essa pessoa ao inferno, ao fogo que “não se apaga”. Se a justiça do Senhor Jesus Cristo não for imputada ao homem, ninguém se salvará. Deus está contra o pecador e Sua decisão de destruí-lo já está tomada, “quem não crer já está condenado” são as palavras de Jesus no evangelho do discípulo do amor. Não há como se salvar sozinho. Nenhum esforço que você empreender vai te favorecer a Deus. Ao contrário disso, se você se aproximar de Deus, no dia do seu julgamento, e disser que quer ser salvo pelo que fez, você terá acendido a ira de Deus e vai ouvir dEle “a minha glória, pois, a outrem não darei”.



Toda a raça humana e Adão têm livre arbítrio

Se Turek pensa assim – pessoalmente creio que não – ele se aproxima de uma heresia já condenada na história da Igreja, o pelagianismo. Pelágio ensinava que “homem natural não é concebido em pecado. Consequentemente, a vontade humana não está presa a uma natureza pecaminosa e suas afeições; apenas as escolhas determinam se alguém irá obedecer a Deus, e assim ser salvo.”[2]



Pelágio cria que não existia diferença entre nós e Adão e que somos tão livres hoje quanto Adão era quando foi criado. Não preciso falar mais do que isso. A história já enterrou Pelágio e ninguém tem poder de ressuscitá-lo.



Só Adão e Eva tiveram livre arbítrio

Aos nossos primeiros pais foi dada a ordem de não comerem o fruto da árvore “do conhecimento do bem o do mal”. Se desobedecessem a Deus, eles morreriam. Assim sendo, eles perderiam a sua condição com a qual foram criados, de viverem para sempre. E foi assim que aconteceu. A imagem de Deus (imago Dei) neles ficou pervertida, deturpada, depravada, manchada pelo pecado que cometeram.



A sentença dada por Jesus é que os homens são “escravos do pecado” e escravos não têm liberdade, não são livres. Em outra parte, Jesus disse para Seus interlocutores que eles não queriam ir até Ele para terem vida, o que denota que eles estavam mortos e, como mortos espirituais, não poderiam ter nenhuma vontade em direção a Deus e muito menos serem livres para exercê-la.



Conclusão

Não podemos ir contra a Palavra de Deus e devemos lê-la a partir do seu todo. Por toda ela, vemos que o pecado do home o afasta de Deus e que o pecado do povo de Deus “faz separação” entre ele e Deus. Além disso, é importante destacar que Deus providenciou um meio para que o homem tivesse esse pecado tirado do meio do caminho e pudesse se aproximar de Jesus Cristo.



A morte e a ressurreição do Senhor Jesus Cristo garantem ao povo de Deus a sua salvação. A Bíblia mostra em toda a sua extensão que o sacrifício de Jesus Cristo é perfeito, completo e definitivo. É perfeito porque Ele não pecou e cumpriu cabalmente a Lei de Deus. O sacrifício dEle é completo porque não resta nada que possamos fazer que complemente o que foi feito. E é definitivo porque não há nenhum outro ser que posso substituir o que foi feito por Jesus.



[1] O vídeo de Frank Turek pode ser visto nesse link: https://goo.gl/8Ucj83.
[2] Michael Horton em Pelagianismo: A Religião do Homem Natural - Primeira Parte: Um Pouco de História. O texto completo pode ser lido em http://www.monergismo.com/textos/arminianismo/pelagianismo.htm.

Nenhum comentário:

Sou calvinista, mas não morro de amor pelo calvinismo

Eu não acredito que o cristianismo possa ser medido em estágios de “desenvolvimento intelectual” em que o sistema teológico que eu tenho...